Fábrica da Criatividade
Alameda do Cansado, 14 b
6000-075 Castelo Branco, Portugal

EXPOSIÇÃO

Sem o seu vínculo original, as imagens fotográficas carregam apenas fragmentos de informação, as quais passam a existir num espaço de interpretação aberto, verdadeiro ou falso, em ambos ou até em nenhum destes. Permanecem apenas como evidências parciais do quotidiano, e é nessa ausência, nostálgica e triste, que reside a beleza em tentar reinventar a sua memória.

o homem aborrecido / memória órfã

fábrica da criatividade

alameda do cansado, 14 b - castelo branco

2 a 28 outubro 2025

segunda-feira a sexta-feira | 8h30 às 17h30

O Aborrecimento do Homem

Ao longo do tempo, vários filósofos e pensadores debruçaram-se sobre este tema. Blaise Pascal (1623-1662), no século XVII, escreveu que “toda a infelicidade dos homens provém de uma única coisa: não saberem permanecer em repouso num quarto”. Pascal via o tédio como o reflexo duma fuga permanente de nós mesmos. Daí o recurso constante ao divertissement, às distrações que nos impedem de encarar a fragilidade da existência. Arthur Schopenhauer (1788-1860), pessimista alemão, descreveu a vida como um ciclo “entre a dor e o tédio”. Desejamos algo e sofremos enquanto não o temos; alcançamos esse algo e, passado o entusiasmo inicial, ficamos apenas com o vazio. O aborrecimento é uma consequência direta da vontade cega que move o homem. Søren Kierkegaard (1813-1855), dinamarquês e profundamente existencial, via no tédio a “raiz de todo o mal”. Através do tédio o homem torna-se consciente da sua liberdade, sendo esta a origem tanto do desespero como da possibilidade de autenticidade. Quem vive apenas esteticamente, em busca de estímulos sempre novos, acaba por cair no desespero. Mas aquele que enfrenta o tédio e faz uma escolha verdadeira, encontra um caminho mais sólido para viver. Martin Heidegger (1889-1976) analisou o grande tédio ou Langeweile, um estado tão profundo de aborrecimento em que tudo perde significado. Paradoxalmente, é nesse silêncio que se revela a estranheza de existir. O tédio pode assim oferecer a possibilidade para a pergunta do ser. Embora de perspetivas distintas, nenhum destes quatro autores olhou para a experiência do tédio como algo superficial ou mero desconforto, mas como parte fundamental e estruturante da existência humana. / Socióloga: Maria de Almeida